segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

António Lobo Antunes, esquizofrénico ou genial?

confesso que deixei de ler Lobo Antunes. pela depressão (a dele ou a minha!?). pelo odor a hospital que emana dos seus livros.
admito que até ao oitavo livro me seduziu a complexidade e densidade psicológica dos seus textos, a sobreposição de narrador, de tempo, de espaço, das personagens.
tal como num poema cantado pela Amália,  senti com a leitura dos seus livros, a “voz de móvel que estala”. e eu gosto de estalar, apesar do medo.
quem é este homem perturbado que escreve sobretudo sobre si próprio, ferido no cerne da seu percurso burguês?
que vozes são essas que ferem, que invadem o sentir com um manto de disfuncionalidade?
que traumas são esses que impedem o crescimento? que amor é este, tão impossível? que tempo é este, tão labiríntico?
ele aguarda respostas. eu deixei de esperar . ele suja a realidade. eu quero a fantasia.
provavelmente ele é genial. e eu? eu quero as minhas vozes. quem dera que fossem limpas!

domingo, 5 de dezembro de 2010

José Luis Peixoto, jovem escritor velho

acabei de ler “Livro” do José Luís Peixoto. como é possível sentir-me tão identificada com um autor, com as suas palavras? a resposta está na sua prosa poética e visceral, qual aparente contradição!
acompanho há muito a obra deste jovem escritor velho. velho sapiente nas palavras mas não gasto na idade. nem na vida dos livros, qual eternidade!
pela mão da morte e do luto, juntei-me a ele e falei-lhe do voo das palavras apetrechadas de asas que o seu livro “Morreste-me” trouxe até mim, também órfã de PAI.
veio depois o fascínio pelo seu estilo inconfundível, suavizado no tempo, agora com menos sangue, untado com a mesma dor. talvez que o que nos une seja isso mesmo: a dor!
nos seus livros povoam personagens surreais, cenários grotescos, perdas (i)rreparáveis, trajectos de vidas reais. a memória. a velhice. acontecimentos marcantes, na pele, no corpo. e o amor, cru, sexual,  quase sempre correspondido.
é grandiosa a sua capacidade de nos levar a olhar para dentro, antes da pele, antes do corpo. antes e depois da dor. lá dentro, do lado de cá. e nesta língua tão nossa, enriquecida com este português: escritor grande!






domingo, 28 de novembro de 2010

Do Saramago, que nunca tarda em desaparecer

quem me conhece sabe o quanto admiro as qualidades literárias do Saramago, as horas de leitura que às suas obras dediquei, o quanto as divulguei a amigos, colegas de trabalho, aos menos amigos também...
hoje fui ver, finalmente, o documentário "José e Pilar". fica registada, para mim, a dependência emocional e funcional relativamente à sua amada, Pilar del Rio. Fica o homem apaixonado, o homem que teme apenas a perda da sua mulher, o homem que teima em desacreditar Deus, o homem que fez perdurar os ideais comunistas e com os quais, não os partilhado, eu disse "quase"! quase me convenceu...
mas é sobre o escritor tardio que agora quero falar. sempre me impressionou a ignorância e o desconhecimento das pessoas face à escrita do Saramago. que o seu estilo é monótono, que não usa pontuação adequada, que é polémico, transgressor, espanhol. refuto. é transgressor, porque o mundo avança desarrumando-o. é polémico, porque a coragem demonstra-se. não é monótono, porque a sua escrita alimenta-se de oralidade, suspense e antecipação. e, caros leitores, a pontuação existe e é correcta. ah e foi português até ao fim das cinzas e ponto final. parágrafo.




sábado, 27 de novembro de 2010

No princípio era eu

eu. que egoísta pareço. não pareço apenas, sou! mas pretendo partilhar com que tiver interesse, o meu gosto pela literatura, por esse mundo verdadeiramente admirável dos livros e das viagens que proporcionam. dou agora início a um percurso inacabado, de partilha de informações sobre autores e obras publicadas. e ainda pelo que está por publicar. talvez seja este momento para recomeçar a escrever, quando escrever já não doer...