domingo, 13 de fevereiro de 2011

Fernando Pessoa, o estrangeiro (des)integrado

se camus, escritor argelino existencialista, encontrasse pessoa no andar defronte à tabacaria, perguntar-lhe-ia “donde és, amigo?”, ao que pessoa responderia ”sou daqui, mas vou mudar-me”!
fernando "viajado", fernando desdobrado, fernando desintegrado, fernando à procura de companhia.
encontrou álvaro, futurista revoltado. encontrou alberto, poeta camponês. encontrou ricardo, bucólico harmonioso, a quem não assassinou a biografia. até encontrou bernardo, o quase-fernando, quotidianamente fragmentado.
no fim, permaneceu no seu quarto de hospital, sozinho, fatalmente cirrótico. mas nunca foi com o fígado que viajou, ainda que no interior de quatro paredes!
terá sido fernando demasiado criativo? terá sido um solitário angustiado? terá sido um neurótico obcecado? terá sido um egocêntrico patológico?
não sei, mas pergunto. mas para quê, se nem sequer me interessam as respostas?!
desta vez não vou comparar nada, absolutamente nada. não vou dar de mim, não vou caracterizar-me. não vou desdobrar-me. não vou procurar-me.
apetecia-me apenas estar defronte à tabacaria e dizer, sem metafísica, sem náusea e sem que a pequena me ouvisse:

come chocolates, pequena, come!
pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!


domingo, 9 de janeiro de 2011

Herman Hesse e o Descontentamento Feliz

e se sofrer por amor não doesse? e se o conformismo se assemelhasse a um melancolismo ligeiro, levemente agradável? e se o cíume não revelasse qualquer sentimento de posse? e se o amor fosse apenas contemplativo? e se a espiritualidade se encontrasse em tudo o que move? e se a ternura permanecesse em nós? e se a solidão não nos afastasse dos outros? e se a arte fosse redentora?
Herman Hesse, escritor alemão, questionou-se sobre tudo isto. com nostalgia. e que sentimento este tão (in)feliz! digo eu, aquela que o transporta e alimenta...
escreveu sobre a fragilidade da condição humana. sobre o amor, nem sempre correspondido. sobre a sublimação da vida, através da arte. sobre a criação artística, decorrente da privação sentida. sobre a melancolia, fonte inspiradora. sobre a deformidade, que castra o corpo. sobre as viagens interiores, em busca de significado(s). sobre a ternura, força conciliadora. sobre a amizade que, fingindo curvar-se sobre o amor, prevalece e derrota-o (não, não pode ser!). tal como ele, questiono-me. ao contrário dele, revolto-me.
Hesse, para mim representa o grito contido. e eu quero a voz, a vomitar o som. mas escrevo. e escrever dói. arranha. cicatriza. e às vezes reconstrói. questiono-me se estarei feliz ou apenas (des)contente.